Chico Buarque
Cultura

O irmão alemão de Chico Buarque: Relato histórico relacionado à vida do autor ou mera ficção romântica?

Resenha de Januário Cabral.

Certa vez, Chico Buarque, falando sobre o processo de criação musical fez alusão ao que ele chamou de “inteligência tátil” que poderia levar um determinado compositor a produzir acordes acidentais sobre os quais ele poderia criar harmonias e melodias prodigiosas. Guardada as devidas proporções, Chico Buarque se apropria da descoberta fortuita e enigmática relacionada à existência de um irmão desconhecido, Sergi Ernst, que teria nascido na Alemanha como consequência de um relacionamento amoroso do seu pai (Sergio Buarque de Holanda), ainda solteiro e trabalhando em Berlim como correspondente da publicação O Jornal, órgão dos Diários Associados (1929-1930), com uma certa Anne Ernst.

De volta ao Brasil sem jamais ter conhecido o filho, Sergio Buarque de Holanda só teria notícias do mesmo no auge sombrio da Segunda Guerra Mundial: com os Nazistas no poder, o pai de Chico recebe uma carta das autoridades do governo alemão querendo saber se a criança, até então, sob a guarda do Estado, não teria antepassados judeus, a fim de que pudesse ser disponibilizada para adoção.

Curiosamente, Chico Buarque tomou conhecimento da existência do meio-irmão em 1967, aos 22 anos de idade, através de uma conversa informal com Vinicius de Moraes e Tom Jobim na residência de Manuel Bandeira quando este último menciona casualmente o filho que Sergio Buarque teria na Alemanha. Como se não bastasse, o acaso novamente se faz presente quando o autor já se empenhava na narrativa do livro e descobre, acidentalmente nos alfarrábios de sua mãe, a tal correspondência que as autoridades alemãs havia endereçado a seu pai, indagando sobre a pureza racial de seu meio-irmão. Deste ponto em diante, Chico Buarque de Holanda desencadeia uma busca sistemática sobre a vida e o paradeiro do irmão recém descoberto: como seria? Onde estaria? Teria sobrevivido aos horrores da guerra?

Assim, em O irmão alemão, o leitor certamente encontra os sentimentos de excitação, curiosidade e angustia que permeiam o desejo incontido do autor de conhecer a verdadeira história e o destino incerto de Sergio Ernst. No bojo dessa discussão, Chico Buarque sugere uma orientação temática, que inclui a paixão incoercível que seu pai (ali chamado Sergio de Hollander) tinha por livros, os conflitos decorrentes do relacionamento lacônico e competitivo que o protagonista da história (Francisco de Hollander ou Ciccio) mantinha com seu irmão (Domingos ou Mimmo), as intervenções de Assunta (mãe do protagonista), uma italiana doce e ao mesmo tempo enérgica, sempre disposta a intermediar o diálogo entre todos os membros da família e a luta inglória que Ciccio travava para ganhar o respeito do pai .

Nesta obra, Chico Buarque parece trabalhar como um pintor que observa atentamente as manchas da parede e, apropriando-se das mesmas cria o seu afresco. O livro encontra-se, portanto, ancorado em uma temática estimulante, fusionando realidade e ficção de tal forma que, o leitor acaba perdendo a exata noção de onde termina uma para começar a outra. Além disso, o livro se encontra contextualizado na intersecção de dois temas extremamente impactantes: o horror do holocausto ocorrido durante a segunda guerra mundial e a ditadura militar que se instalou no Brasil a partir de 1964, com dramáticas consequências para a liberdade política e as garantias constitucionais dos direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros.

Eu li,

Januário Cabral

Januário Cabral

E você?

Previous Post Next Post

You Might Also Like

2 Comments

  • Reply removalists townsville junho 16, 2015 at 4:59 pm

    Hello There. I found your blog using msn. This is
    an extremely well written article. I’ll be sure to bookmark it and come back to read
    more of your useful information. Thanks for the post. I’ll definitely comeback.

    • Reply Alessandra junho 16, 2015 at 5:24 pm

      Hi Leonore
      Welcome. Thanks for your message!

    Leave a Reply