Cultura

Vó Maria, 104 anos de história!

Eu tinha um sonho de escrever um livro sobre os 104 anos de história dessa diva que foi a nossa Vó Maria. Montei um projeto pela Funarte e tive o imenso prazer de entrevistá-la e filmá-la. Ela me recebeu com muito amor e carinho. Agora a homenagem que posso fazer é compartilhar com vocês…

Vó Maria, Maria das Dores Santos Conceição, tornou-se conhecida por dois adventos: o primeiro por ter sido a terceira esposa do famoso Ernesto Joaquim Maria dos Santos, o Donga, músico, compositor e violinista negro brasileiro, que gravou o primeiro samba conhecido intitulado “Pelo Telefone” em 1917 e o segundo pela proeza de ter gravado, aos 92 anos de idade, o seu primeiro CD de samba, apesar de cantar desde os seus vinte anos de idade.

Vó Maria nasceu em 1911, em suas palavras na « roça », na cidade de Mendes. Sua avó foi escrava e herdou um pedacinho de terra de seus antigos donos. Sua família, seu pai, sua avó e a velha Dina, mãe adotiva, viviam do cultivo da terra. Em 1920, Vó Maria instala-se no Grajaú, no Município do Rio de Janeiro. Casou-se pela primeira vez aos 27 anos e ficou viúva um ano depois em decorrência de um acidente automobilístico. Casou-se novamente com o Sr João Conceição e mais uma vez ficou viúva. Aos 30 anos começa uma nova etapa de sua vida. Vó Maria conhece o Donga e se casa pela terceira vez, não apenas com um homem, mas também com o mundo do samba.

“…Eu conhecia todo mundo do samba, pois todos frequentavam as rodas de samba lá de casa : Pixinguinha, João da Baiana da Santíssima Trindade, que foram os primeiros amigos do Donga. Depois : Cartola, Walter Rosa, Xangô da Mangueira, Martinho da Vila e Aniceto do Império. Algumas mulheres importantes como Clara Nunes, que me chamava de mãe, quando ela saía do choro ia lá para casa, Beth Carvalho, Clementina…”.

Vó Maria se destaca entre os personagens de importância capital do samba. Sua casa é um dos redutos dos bambas. As rodas de samba em sua casa começavam ao meio dia, na hora do almoço, e terminavam às 5h da manha. Um entre e sai de músicos, compositores, jornalistas, fazedores de opinião e até mesmo representantes da Ordem Pública. Segundo uma anedota contada pela Vó Maria, numa dessas rodas de samba, policiais foram chamados e chegaram com o intuito de por fim à festa, pois naquela época as rodas de samba eram reprimidas e os sambistas considerados marginais. Porém um dos chefes da Policia era amigo do Donga, gostava muito de samba, e estava presente neste dia. Os policiais que chegaram para acabar com a festa deram de cara com o chefe da Policia que disse que se ocuparia do caso e ficou por isso mesmo.

Nas rodas de samba, Vó Maria tinha a função de receber a todos, mas não cantava. Donga dizia que mulher bonita não podia cantar numa roda de samba. Mas o talento musical de Vó Maria ia sendo alimentado e estimulado por todos esses bambas. Ela se revelou uma excelente compositora com temas contemporâneos à sua sociedade. Em 1969 quando o homem pisa pela primeira vez na lua, ela compõe « Eu sambo no Morro”:
“Eu sambo no Morro, eu sambo na rua, eu vou levar o meu samba a um brasileiro na Lua, O samba é bom, mas tem que saber sambar, o samba é brasileiro, o que precisa é cantar …”
“Eu escrevi esse samba porque queriam acabar com o samba !” declama Vó Maria.

O samba não acabou! Vó Maria é parte da nossa história e da nossa identidade cultural por isso estará sempre presente!

Obrigada Vó Maria.Vomaria2

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1 Comment

  • Reply Afranio C Pinto maio 17, 2015 at 4:20 pm

    Maravilha!

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